domingo, 1 de novembro de 2015

Camphuysen por Bandeira

Nos arquivos da Biblioteca Nacional (Correio da Manhã, 19 de novembro de 1944): Camphuysen, poeta holandês medieval, traduzido por Manuel Bandeira e com introdução de Otto Maria Carpeaux.




Van Ostaijen, poeta holandês

Van Ostaijen, poeta holandês

Por José Roberto Teixeira Leite

O desconhecimento, no Brasil, da moderna literatura holandesa é um fato. Há tempos dedicou Otto Maria Carpeaux um artigo à obra e à personalidade do romancista Multatuli (pseudônimo de E. D. Dekker, 1820-1887), autor do romance Max Havelaar, onde se analisa a crueldade da colonização holandesa nas Índias; e em suas Noções de História das Literaturas dedicou Manuel Bandeira – estribado em Van Thiegen e Prampollini – uma das poucas páginas a essa literatura que são os pontos mais elevados Vondel, no passado, e no presente Huizinga, Coster, o grande poeta Kloos, Van Oudshoon – autor de Willem Merten - , etc. Mas foi só: nenhuma outra referência ou alusão encontramos, no Brasil de hoje, a essa literatura que teimamos em ignorar, decerto acreditando na tão propalada invenção de que, ao contrário da pintura – tão importante desde o século XV –, a literatura dos Países Baixos não tem grande valia. Não a terá, decerto, se comparada à pintura – gênero natural de expressão, em que os neerlandeses melhor se acharam e ainda se acham. Mas não há como subestimar a prosa e a poesia holandesas, embora uma língua particularmente difícil e pouco utilizada fora dos Países Baixos seja entrave quase insuperável a seu conhecimento. É modesta contribuição a tal conhecimento o presente artigo, que trata de um dos mais originais poetas europeus do século atual: Paul van Ostaijen. Depois, é de importância realçar a obra desse escritor falecido em 1928, numa época em que uma boa parcela da jovem poesia brasileira, influenciada pela concretismo, tenda valorizar, no poema, aquele lado visual tantas vezes desprezado anteriormente. Porque Van Ostaijen, a quem não podemos considerar um concretista, a não ser resvalando em grosseira generalização, em muitos de seus poemas antecipa-se a certas conquistas espaciais dos concretistas, podendo ser inclusive considerado um precursor da tendência.
Não é estranhável que Paul van Ostaijen tenha principiado sua carreira de escritor por uma obra dedicada às artes visuais. Tinha então apenas 22 anos – nascera em 1896 –, e a Grande Guerra – que a de 1939-1945 provaria, até segunda ordem, não ter sido tão grande como muitos julgavam –, chegava a seu fim com a derrota alemã.
Entusiasmado pelas conquistas da arte moderna, preconizava-lhe – numa época heroica e ainda indecisa – um brilhante futuro no seio da civilização ocidental. Criado num ambiente ultra burguês – pai catoliaão, capitalista –, numa das cidades mais burguesas da Europa, Antuérpia, frequentando na infância e adolescência os meios burgueses de que cedo se enojaria, era por uma vida de artista e pelo fascínio da arte e da poesia modernas que Van Ostaijen procurava dar vasas à sua nausée. No ambiente de verdadeiro charco estagnado que era, do ponto de vista cultural, Flandres de antes da Guerra de 1914, Van Ostaijen era dos poucos jovens que procuravam novas modalidades de expressão, uma reação qualquer contra o marasmo reinante. Simbolismo e dandyismo – movimento de que talvez, no Brasil, fosse eco da afetação de Afrânio Peixoto nos inícios de sua carreira, na Bahia, o Julio Afrânio que publicara Rosa Mística e que, muito e muito jovem, atravessava as ruas de Salvador com um lenço na sinistra e uma rosa rubra na destra... –, simbolismo e dandyismo eram duas escolas literárias em voga, à época, no Flandres; e o último, como é claro, derivado do primeiro. Van Ostaijen ingressou nas fileiras do segundo, para grande desgosto do pai, a quem repugnava a vida boêmia, de artista desmiolado, levada pelo filho; travaja-se bizarramente, com modelos que ele próprio desenhava, e granjeou a alcunha de Míster 1830, algo paradoxal no rapaz que, alguns anos depois, proclamaria as excelências da estética moderna. Mas como e não possível reconhecer no Afrânio Peixoto de seus melhores romances o doidivanas de Rosa Mistica, também o Míster 1830 não deve ser confundido com o poeta lírico Van Ostaijen, nascido de suas cinzas.
A invasão alemã da Bélgica, e a ocupação da Antuérpia, de 1914 a 1918, pelas tropas germânicas, possibilitará ao jovem poeta maior amadurecimento, levando-o a abandonar o dandyismo – cuja filosofia de ceticismo um pouco à la Oscar Wilde já não condizia com os termos da realidade brutal que estava então vivendo. O fundo místico do poeta, porém, breve irá fazer com que ele seja um dos entusiastas seguidores do Unanimismo de Jules Romais, de cujo espírito acha-se impregnado seu livro de estreia, Music Hall (1916). A publicação de Music Hall causou, aliás, espanto e escândalo, já que no volume quebrava Van Ostaijen inteiramente com aquela tradição literária a que se tinham acostumado todos, em Flandres. Alguns de seus poemas mais próximos da poesia de Jules Laforge, por exemplo, por sua ironia foram duramente criticados. Em Het Sienjaal, segunda coletânea de versos, aparecida pouco após o termino da Guerra, Van Ostaijen resvala para um humanitarismo, um sentimentalismo, por vezes, de que posteriormente recuaria, rejeitando, então, o volume. Isso não impediria, porém, que uma legião de imitadores começasse, na Bélgica e na Holanda, a poetar à maneira segunda de Van Ostaijen.  Em 1918, após um malogro político – Van Ostaijen era partidário das ideias ativistas, isto é, sonhava com a independência da Bélgica de língua holandesa –, o poeta é obrigado a exilar-se em Berlim. Ali demorar-se-á até 1921, tomando parte ativa no movimento desencadeado e mantido pelos orientadores da revista Der Sturm, com Herwarth Wlaten à frente. Era porém com pintores e escultores que gostava de trocar ideias - e aí surpreendemos, mais uma vez, a vocação de visual do próximo autor de Bezette Stad (1921). Escreveu, durante o período berlinense, uma grande quantidade de narrativas. Grotescas umas, burlescas outras, irônicas, absurdas, satíricas. Foi, avant le mot, um dos que se valeram, e com êxito, da escrita automática, que os surrealistas levariam ao paroxismo. Foi decerto de suas conversas com os artistas visuais que derivou a ideia, que desenvolveria posteriormente numa teoria, de que a forma do poema é o próprio poema, e subordinar essa forma a uma temática determinada é restringir o poema. Usando de termos mais pictóricos, mais visuais, diríamos que Van Ostaijen chegava à conclusão de que deveria dar maior importância à matéria poética, do que à essência, ao anedótico. Inventou, então, uma tipográfica rítmica, apelando para a forma visual do vocábulo – não à maneira de Appolinaire ou à de Sá-Carneiro, em seu Manucure, para ilustrar o texto: ao contrário, para ampará-lo. Usou tipos de vários corpos e impressos em diferentes cores, não como um recurso pitoresco, mas porque sentia a necessidade de basear seus textos com elementos visuais. Datam de tal época os poemas de Feesten van Angst en Pijn, espécie de continuação de Bezette Stad. O regresso à Bélgica dá-se em 1921, quando já a saúde de Van Ostaijen começa a declinar. Abre ele, em Antuérpia, uma galeria de arte – que depois troca por outra, A La Vierge Poupine, em Bruxelas. Em A La Vierge Poupine organiza uma série de exposições de artistas contemporâneos, belgas ou estrangeiros. Tenta formar uma escola flamenga moderna, mas fracassa em seu intento. Entrementes, escreve alguns de seus melhores poemas, imbuídos daquele puro lírico que definia nessas palavras significativas e atuais: “Estou procurando o poema sem sujeito: o sujeito do poema é o próprio poema”. Em 1928, poucos meses antes de morrer, aos 32 anos, vítima da tuberculose, funda Paul van Ostaijen com Burssens e Du Perron a revista Avontuur. Era já tarde em sua vida, porém. Calar-se-ia em breve a voz do poeta, que morreu quando apenas entrevia o seu verdadeiro caminho, e quando buscava sem desânimos dar vasas à sua mensagem.    



Artigo originalmente publicado no suplemento dominical do Jornal do Brasil em 14/02/1959. A tradução do poema é do próprio José Roberto Teixeira Leite.

terça-feira, 1 de julho de 2014

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terça-feira, 20 de maio de 2014

A Holanda em 5 minutos - Vestdijk

A Holanda em 5 minutos

O 60º aniversário de Simon Vestdijk, transcorrido a 17 de outubro, ofereceu ocasião à imprensa holandesa de chamar atenção para aquele escritor, através de inúmeros artigos. Realmente, trata-se de uma grande figura, a mais importante do romance holandês contemporâneo. Antes se deveria dizer um fenômeno, de acordo com os críticos holandeses, como Pierre Dubois, por exemplo, que no seu livro “A literatura holandesa”, qualifica Vestdijk de “fenômeno extraordinário de formato europeu, escritor onisciente”.
Entre os trintas romances, aproximadamente, que se devem a esse escritor de extraordinária fecundidade – e, seja dito de passagem, um dos raros escritores dos Países Baixos que vivem de sua pena – podem ser citados de pronto, uns dez: seja uma de suas obras quase autobiográficas da juventude, como o encantador “São Sebastião”; seja um dos romances históricos de indiscutível interesse como “A queda de Pilatos”; seja qualquer uma das criações de pós-guerra, onde se afirma, seus contos, seus ensaios, um sentimento de vida cheio de indulgência, alternando com uma doçura oculta e , às vezes, produzindo, juntamente com ela, uma visão sarcástica dos seres, um matiz apenas perceptível, muito pessoal e, ao mesmo tempo, “muito holandês”, do humor.
E não podemos, também, nos esquecer de falar sobre seus poemas, seus contos, seus ensaios, que estão entre os melhores da produção literária holandesa.
Na obra desse escritor, natural da pequena aldeia frísia de Harlingen, não devemos estar empenhados em descobrir a cada passo uma amostra da “cor local” holandesa. Espírito universal, Vestdijk, em seus romances, se interessou tanto pela antiguidade helênica ou romana como pela Espanha de Greco, e as cenas de suas obras se desenrolam tanto na Irlanda do século XIX como na Jamaica, na Alemanha de Wallerstein, como na França de Luís XV.
Quando o autor escolhe como assunto a Holanda contemporânea, é para descrever sua juventude e, através dela, os problemas da juventude; o ambiente refratário durante a ocupação, com uma análise da conduta humana submetida ao limite extremo da tensão; a vida de um professor de música numa cidade provinciana e os sintomas da “doença” nesse ambiente; o ambiente de um professor secundário; o de um médico; o de um regente de orquestra.
A mocidade, a angústia, a morte; eis, atravessados pela dúvida metafísica, os temas que, como observou Ter Braak, formam o núcleo dos romances, contos, poemas e dos inúmeros ensaios de Vestdijk.
E, no que diz respeito à cor local, o leitor estrangeiro não ficará muito satisfeito com Vestdijk, mas ver-se-á poupado dessas descrições de paisagens vagamente bucólicas e convencionais que aparecem, com frequência, em muitas obras traduzidas. Em compensação, em inúmeras obras, o leitor encontrará a análise de reações humanas que, conservando seu valor universal, nem por isso deixam de reproduzir aspectos típicos do caráter holandês.

Artigo publicado no Correio da Manhã em 10/01/1959. Não tem assinatura.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

A literatura holandesa e sua difusão no estrangeiro

Um dos mistérios que é justo romper algum dia é o pouco conhecimento dos leitores de outros países no que concerne à literatura holandesa. Ao passo que a pintura e arquitetura dos Países Baixos gozam, além de suas fronteiras, de merecido renome, sua literatura é muito pouco conhecida. É bem certo que se atribui essa ignorância à pequena difusão do idioma holandês no mundo, mas esse argumento não explica inteiramente o fenômeno. A técnica holandesa não conseguiu vencer as barreiras do idioma? Pequenas nações – cujos idiomas nem chegam mesmo a ser, como o holandês, o veículo de expressão de vinte milhões de indivíduos – não adquiriram, no domínio literário, uma notoriedade muito maior que a dos Países Baixos?
Em tais condições, é lícito, mesmo, formular-se a pergunta se os Países Baixos não carecerão de uma literatura nacional.
Os estrangeiros mostram-se, com frequência, inclinados a acreditar que esse seja o caso. E, dada a falta de traduções de mérito, não se pode censurar o estrangeiro por seu gosto “intelectual” por um folclore de pitorescos moinhos, tulipas ornamentais e danças de tamancos.
É claro que seria ridículo e pretensioso afirmar-se que a Holanda produz, dentro do maior segredo, séries de obras-primas literárias, tão numerosas quanto ignoradas.
O que se pode afirmar, sem dúvida alguma, é que a Holanda tem direito de ocupar um lugar honroso no domínio das letras. Por sua posição geográfica, os Países Baixos têm sido sempre um centro animado de intercâmbio e o comércio das ideias jamais foi ali negligenciado. Ao contrário, desde a Idade Média, as coisas do espírito têm desempenhado papel de imensa importância e a própria atitude do povo holandês jamais foi passiva nesse domínio. Seria muito fácil provar-se essa afirmativa, com estatísticas de publicações de livros.
As observações acima expostas têm por fim salientar que a literatura holandesa não é orientada para o folclore. O leitor estrangeiro nela não encontrará o cromo dos cartões postais, nem o impulso de um povo para as tradições e uma estética que significaria para ele o expatriamento. No entanto, a literatura holandesa não é desprovida de uma característica bem particular. E não há motivo para se procurar somente na literatura regionalista holandesa uma atmosfera típica dos Países Baixos. Grandes escritores, como Couperus ou o contemporâneo Vestdijk, escreveram romances banhados de uma luz autenticamente “doméstica” e que, nem por isso, deixam de ter um aspecto internacional, no plano da cultura e dos sentimentos.
Se um certo número de romances merece melhor divulgação fora das fronteiras linguísticas da Holanda, também devem ser conhecidos pelo seu elevado valor literário. Não há dúvida de que trazem uma contribuição à eterna atualidade da cultura cívica.
Além disso, existem, nos Países Baixos, muitas obras capazes de interessar o leitor estrangeiro, obras que ilustram um aspecto da vida europeia, tanto no presente como no passado, quase ignorada do grande público. E, como a ele temos feito alusão, digamos que o romance regionalista não carece de atrativos. Oferece uma imagem da existência em regiões espiritualmente isoladas do estrangeiro, como nos romances de Antoon Coolen. Qual é o seu domínio? Ele o descreve, no “O bom assassino”: “Nesta pequena rua, aqui e ali, um jardinzinho. Mais algumas ruas em torno da igreja; casinholas de operários, lojas, albergues. Depois, os campos. E ali, espalhadas, as fazendas onde vivem os camponeses”. Regionalismo? Talvez. Mas cada habitante de uma aldeia do mundo “lê”, encontra nessa descrição reduzida a sua expressão mais simples, um horizonte familiar.
Resta falar sobre a poesia e o ensaio. A primeira atinge elevado nível, mas apesar de nobres tentativas, apresenta grandes dificuldades na tradução. Os ensaios, ao contrário, se prestam à tradução e Huizinga foi traduzido para inúmeras línguas, entre as quais a francesa. Esse gênero de literatura se desenvolveu favoravelmente no curso desse século.
Citemos, para completar, a novela, que os holandeses praticam com arte consumada. Infelizmente, somos obrigados a constatar que a obra literária dos Países Baixos de hoje – como da Holanda de ontem – continua praticamente ignorada pelo público cultivado do mundo.
Seria inútil meditar sobre as razões que causam a ignorância do público em face da literatura holandesa. O fato é conhecido, as edições em línguas estrangeiras não aparecem. Lamentemos, mas não insistamos.
Que se poderá fazer para remediar essa situação? Tal é a pergunta que a Fundação para a Difusão da Literatura Holandesa no Exterior procura dar uma resposta.
Temos diante dos olhos o numero 1 de 3 de junho de 1957 do “Correio literário dos Países Baixos”, editado por aquela organização e ali encontramos uma exposição sobre a obra de Simon Vestdijk, até a data de 1º de março de 1957. Constatamos que só a enumeração das obras ocupa duas páginas de revista, fato que quer dizer que Vestdijk não era um autor que tivesse uma história para contar, e sim uma obra a oferecer aos homens de sua geração. Ora, Vestdijk é desconhecido no estrangeiro e na nomenclatura das traduções editadas em 1955 no mundo, não figura uma única obra desse escritor, o que é, realmente, lamentável.
Esse “Correio Literário dos Países Baixos”, redigido por jovens e talentosos literatos holandeses, procurará oferecer aos leitores estrangeiros – e em particular aos editores – ocasião de se familiarizarem com a literatura nacional da Holanda. A Fundação, exercendo suas finalidades sem fins lucrativos, servirá de intermediária entre o editor estrangeiro, o agente literário e o editor holandês, para beneficio do escritor e da literatura holandesa em geral. A difusão do pensamento holandês dará assim, esperamos, um grande passo.


Artigo originalmente publicado no Correio da Manhã em 1º de setembro de 1957. Não há assinatura, mas pelo histórico de artigos holandeses do jornal, acredita-se que o autor seja Otto Maria Carpeaux, Francisco Aníbal ou José Roberto Teixeira Leite.        
                                                                             
                       

terça-feira, 29 de abril de 2014

Camões e Slauerhoff - O. M. Carpeaux

Camões e Slauerhoff
Por Otto Maria Carpeaux

Apesar das muitas traduções dos “Lusíadas” para todas as línguas, a fama universal do maior poeta português baseia-se mais no interesse pela sua vida aventurosa e desgraçada. Mais numerosos que as traduções são, em todas as literaturas, os poemas, tragédias, romances e contos em que Camões aparece como personagem principal. Não adiantaria dar uma relação de título e nomes; seria exibição de erudição inútil. Pois entre aquelas obras todas não há, parece, nenhuma obra-prima. Nenhum dos autores revela compreensão profunda daquele grande poeta e grande caráter. Para todos eles, antes é um nobre e infeliz aventureiro; imagem nada superior àquela de historiógrafo oficial, em versos, do império colonial português, que os oradores de sobremesa costumam festejar, nesta parte do mundo. A não ser...
Não sei se alguém falou, no Brasil ou em Portugal, da obra que escreveu sobre Camões um poeta holandês contemporâneo nosso. Se não, o assunto merece o comentário.
Jan Slauerhoff nasceu em 1898 e morreu em 1936. Foi importante poeta lírico e autor de importantes obras em prosa. Como médico de bordo passou a curta vida viajando pelos sete mares, especialmente para a América do Sul e para o Extremo Oriente. Foi homem dedicado à aventura: um romântico. A realidade o fez sofrer. Encontrando-a, numa mulher, num país exótico, em companheiros e amigos, sempre começou exultando e exaltando a realidade; e acabou desesperando dela e desesperado. Generalizando essa experiência, profetizando apocalipticamente o fim do mundo; e os anos de 1930, pouco depois de sua morte, pareciam dar-lhe razão. Sua profecia tinha bases existenciais: o mundo e ele próprio pareciam-lhe “jogados para a existência”, termo da filosofia de Heidegger, que o poeta tinha estudado. A “inquietação mortal do seu coração” (para falar com Kierkegaard) incompatibilizou-o com a ordem do mundo burguês, ainda, aparentemente, intacto no seu tempo. A viagem para continentes remotos não era, para ele, uma fuga, uma evasão; antes procura de uma ilha utópica na qual coexistiriam a plena e desenfreada liberdade do indivíduo e a permanência das coisas sem a qual não lhe parecia possível a arte. Um ideal de homem da Renascença, Slauerhoff acreditava encontrar esse ideal, com muita licença poética, na China. E na China encontrou a sombra de Camões.
O romance “O reino proibido” (1932) foi escrito naquela mesma célebre gruta, em Macau, na qual Camões escrevera os “Lusíadas”. A obra é muito complexa, capaz de desconsertar o leitor desprevenido. Por outro lado, não é provável que venha a ser, tão cedo, traduzida. E, sendo pouco divulgada no mundo a língua holandesa e desconhecendo-se os formidáveis tesouros de sua literatura, talvez não seja inútil um resumo comentado de “O reino proibido”.
A obra começa com espécie de diário no qual Camões fala de sua vida na corte portuguesa e de sua paixão por Diana, que foi motivo de seu desterro. Mas admite que a desgraça foi fatal e inevitável; suas atitudes, incompatíveis com as conveniências da sociedade, teriam causado, de qualquer maneira, o exílio.
Depois, em Macau: o governador da cidade, Campos, luta desesperadamente contra seus inimigos, sendo apoiado apenas por um dos oficiais que espera conquistar desse modo, a filha do governador; mas dona Pilar não quer ouvir desse pretendente. Continua o diário de Camões: o exílio, o naufrágio. Numa ilha deserta, perto da costa chinesa, o poeta encontra Pilar, que fugiu das pretensões daquela oficial. Nessa moça, Camões acredita ver uma encarnação ou reencarnação de Diana; motivo que é de importância, na obra. Enfim, o poeta chega a Macau, onde fica preso... Nesta altura interrompe-se bruscamente a narração. Começa o diário de um telegrafista de bordo, dos nossos dias, viajando para a China. Mas foi só um estranho episódio, pois logo continua o romance de Camões, que é escolhido, pelo governador, para acompanhar uma embaixada para Pequim. A caravana perde-se no deserto. Abandonado por todos, o poeta fica só, “junto dum seco, fero e estéril monte” – e essa citação (Canção X, 1), assim como a confusão entre Diana e Pilar, também revelará depois sentido profundo.
De repente, a narração muda novamente de tempo. Aquele telegrafista, desembarcando na China, sente-se em casa. É o fenômeno do “dejà vu” que experimentamos nos sonhos: vendo uma paisagem desconhecida como se já tivéssemos conhecido. Em Macau, o telegrafista assiste a tumultos que lembram a história do século XVI. Retira-se para o deserto. Descansa, “junto dum seco, ferro, e estéril monte” – a identificação de duas pessoas, que já se realizara no caso de Diana e Pilar, repete-se; o homem moderno é Camões. Macau não é a antiga nem a de hoje: é a porta de um reino, fora da civilização europeia, onde o homem é livre e onde, no entanto, tudo é permanente e nada muda através dos séculos. A utopia está realizada. Camões não perdeu inutilmente a vida. Sua luta continua.
Esse livro estranho não deixou de desconsertar a crítica holandesa, que acreditava encontrar na obra a doutrina asiática da reencarnação das almas. Num pequeno escrito, “A última encarnação de Camões”, defendeu-se Slauerhoff contra essa interpretação. Seu objetivo apenas teria sido o de demonstrar a possibilidade de “empatia” intuitiva, de penetrar poeticamente na alma de um grande homem do passado. No fundo, o poeta holandês nega o tempo. Sua China é eterna. E podemos acrescentar: sua China fica em toda parte e em parte nenhuma: na alma de todos os poetas e na sua própria.
Assunto dos mais interessantes seria uma comparação entre a China fantástica de Slauerhoff e aquela outra China fantástica na qual se passam várias novelas e parábolas de Kafka. Mas isto é para outra vez. Agora basta focalizar duas semelhanças: as “Chinas” dos dois escritores contemporâneos são vistas através do sonho e de uma sutil ironia. Realmente, Slauerhoff, homem trágico, nunca deixou de ironizar o mundo e a si próprio. Tinha motivos para isto, e, sobretudo em “O reino proibido”. Pois apresenta-se como novo Camões: mas um Camões sem fé cristã nem fé nacional. Não é preciso dizer que o romance é infinitamente inferior aos “Lusíadas”. Mas não apenas em valor literário. Sobretudo falta ao panorama das aventuras no “reino proibido” o fundo histórico: o império colonial português e o céu cristão.
Mas esse defeito tem, como reversos, uma virtude. Despindo Camões de todos os elementos ideológicos, Slauerhoff descobriu no poeta aquilo que nunca poderia descobrir a historiografia literária oficial dos portugueses nem o romantismo dos estrangeiros: a personalidade de um homem indômito da Renascença. Slauerhoff contribuiu para a melhor compreensão de um aspecto do poeta; e para focalizar a atualidade permanente.  

Artigo originalmente publicado no Correio da Manhã em 8 de outubro de 1955.  

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Prosadores da Holanda - Francisco Albal

[nota do editor do Jornal do Brasil]
No intuito de tornar mais conhecida a literatura da Holanda, tão desenvolvida como nas maiores capitais intelectuais do mundo, publicamos, hoje, um trabalho do crítico Albal. Embora feito de maneira esquemática, esse artigo nos dá uma ideia da situação literária holandesa.

Prosadores da Holanda                                                    
por Francisco Albal

A prosa holandesa necessita uma reação mais clara contra a estagnação, uma dessas “reações” indispensáveis a toda evolução cultural. Sua situação de continuidade é confirmada pelo fato de não ter surgido, ainda, um núcleo renascente, um corpo literário dotado de personalidade própria, como o Movimento de 1880, a Geração de 1920 e a última Escola de Amsterdam.
Desses três últimos condensadores da literatura holandesa, nos últimos três quartos de século, nenhum foi tão homogêneo quanto o primeiro, com seu órgão “O Novo Guia”, seu mentor – o poeta e crítico Albert Verwey (1865-1937), que ainda depois haveria de continuar pontificando na revista “O Movimento” até 1919 – seu grande poema de consagração “Maio”, de um dos maiores poetas holandeses de todos os tempos, Herman Gorter e que, além disso, contou com duas figuras de grande valor e indiscutível complexidade: Frederik van Eeden e Jacobus van Looy.
A esse “Movimento de 80”, que ultrapassou o âmbito da literatura para se transformar num renascimento global da vida cultural holandesa, seguiu-se a chamada “Geração de 1920” ou “Geração Entre as Guerras”, que se dividiu em dois grupos, que tomaram rumos diferentes: o capitaneado por Nico van Suchtelen, autor de “Quia Absurdum”, e Arthur van Schendel, o magnífico prosador de “Um vagabundo enamorado”, e o grupo dos reformadores socialistas, dos otimistas iluminados pela visão próxima de um mundo melhor, do qual faz parte também o gigante Herman Gorter e do qual é o porta-voz mais entusiasta e luminoso, a poetisa Henriette Roland Holst-van der Schalk (1869-1952).
E, assim como o movimento de 80 pesou enormemente sobre a geração de 1920, esta continuou influenciando – na prosa de hoje quase totalmente – os Boutens, Bloem, Van Eyck, Geerten-Gossaert, Greshoff, De Haan, Aart van der Leuw e Victor E. van Vriesland
Quanto à chamada Escola de Amsterdam, é visível a sua falta de homoneidade. Seus membros não têm de comum senão a capital que lhes dá o nome e uma certa preocupação pela transitoriedade da existência, pela constante ameaça da morte, contra a qual cada um se defende de acordo com seu próprio caráter.
Presentemente, as letras holandesas ainda mostram mais acentuada dispersão, maior descentralização. A literatura parece se refugiar nos focos provincianos, como que fugindo do terrível monopólio das capitais. As contingências geográficas, contudo, exercem influencia diminuta na Holanda atual. O mais importante é o fato da prosa holandesa ter muitos seguidores e poucos valores. E que estes valores não sejam, exatamente, de hoje. Em nossas coordenadas, portanto, o movimento da prosa na Holanda descreve uma curva de grande dispersão, quer dizer ampla na base da altura reduzida, como uma colina de rampa muito suave. Será uma das razões desse fato a que se refere Annie Romein Verschoon, em seu belo livrinho “Pantano e Céu”, quando fala, sem apurar a culpa, do fenômeno de após guerra, que consiste no grande numero de jornais e revistas em que aparecem trabalhos curtos e superficiais de jovens escritores? Um excesso de jornalismo pode ser nefasto para a qualidade da prosa, porque o jornalista é mais levado a fazer concessões ao publico e, além disso, trabalha apressadamente.
Feitas essas explicações, examinemos a galeria dos prosadores atuais, sem pretender, em absoluto, sermos completos.
Deixando de lado os poetas que têm escritos prosa em conferencias e palestras, e os críticos e eruditos, como o Professor J.L.Walch e o Professor Jan Romein, este último um espírito enciclopédico, discípulo do grande Huizinga, citaremos mais conhecidos e de mais valor.
Continuadores da obra de Multatuli: Madelon Szekeley-Lulofz, autora dos primeiros romances genuinamente coloniais em holandês: “Borracha”, “Coolie”, e “Outro Mundo”; Beo Vuik, contista de “Cem Ilhas” e de “A última casa do mundo”; a javanesa Soewarsih Djojopoespito, com seu “Foro de jugo”; Du Perron, holandês de ascendência francesa e nascido em Java, autor de muitas obras, destacando-se “O País Natal”, e Albert Heman, holandês do Suriname, de grande fecundidade literária, infatigável viajante, autor de obras celebradas, como “Sul-Sudoeste”, “A Plantação Muda”, “Coração sem Terra”, “Por que não?”, “O Ditador Louco”, “A Esfinge da Espanha”, e Cola Debrot, com “Minha irmã, a negra”.
Romancistas humoristas: Henriette van Eyck, autora de “Pequeno Desfile”, “Gabriel, história do homenzinho magro” e, mais recentemente, “De casa em casa”; Godfried Bomans, delicioso contista, de humor suave, amante das parábolas.
De ambiente cosmopolita: Van Schendel, um dos grandes coloristas da prosa holandesa; A. den Doolard, autor do conhecidíssimo “Orient Express” e de inúmeros outros romances mais ou menos exóticos; Jan de Hartog, escritor mais europeu que holandês, autor, entre outras coisas, de “Gloria da Holanda”.
Regionalistas: Antoon Coolen, de Brabante, que soube pintar, com riqueza, a vida do católico do sul da Holanda, e Herman de Man, seu paralelo, na vida do norte da Holanda, calvinista.
E terminemos com os mais inquietos e profundos: Jef Last, efervescente, turbulento e apaixonado; Maurits Dekker, mais complexo, trágico, irônico e profundo; H. M. van Randwijk, idealista, generoso e vibrante escritor de vanguarda socialista cristã; Theun de Vries, notável narrador, de força incontrolável; F. Bordewijk, romancista de álgida fantasia, que antecipou A. Huxley e também escreveu uma obra humana e transcendental: “Karakter”. E, por fim, o mago das letras holandesas, S. Vestdijk, médico, psicólogo, poeta, crítico e romancista de extraordinário talento e fecundidade.

Artigo originalmente publicado no suplemento dominical do Jornal do Brasil em 1/7/1956